Erlon José Paschoal
BRASIL, Sudeste, VITORIA, MATA DA PRAIA, Homem, de 46 a 55 anos, German, English, Arte e cultura



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A poesia da vida

            No final de todo ano, a par das compras intensivas e do desejo de comer e beber insaciavelmente, afloram os bons sentimentos, as boas intenções, os desejos positivos, as metáforas e a poesia. Ainda bem. Significa que temos um tempo dedicado a pensar no bem dos outros e da humanidade. Pena que seja um tempo curto e vinculado às obrigações de dar e receber presentes.

            Vivenciamos também o simbolismo do fechamento de um círculo e do início de um outro, embora todos sabemos que a vida é contínua e sem interrupções. Mas de qualquer modo temos a sensação de que algo terminou e de que a vida recomeçará. Culturalmente é um momento de reavaliação dos próprios atos e de retomada dos verdadeiros objetivos que orientam a vida e a realização dos sonhos e desejos mais profundos.

            É interessante observar como todos se deixam dominar pela poesia utilizando metáforas as mais diversas para expressar os seus sentimentos e anseios, mesmo que predominem os lugares comuns e as frases feitas. Pois sabemos que no fundo as palavras têm um poder especial. Segundo a Bíblia, o mundo tal como o conhecemos começou com a força das palavras de Deus: “Fiat lux”, faça-se a luz, e fez-se a luz. Acreditava-se então que o ato de pronunciar determinadas palavras desencadeasse no universo um processo de concretização daquilo que elas significavam. E então a luz se fez e teve início a vida humana.

            Penso que uma pessoa elabora as expressões de que necessita, ainda que tenham sido repetidas infinitas vezes, ou então inventa novas combinações, a fim de manifestar aquilo que somente ela sente e percebe, sobretudo o modo como sente e percebe o mundo. Afinal todos podem ser poetas alguma vez na vida ou no mínimo criar uma poesia a partir de sua necessidade de exprimir ao mundo os seus sentimentos reais e íntimos. A verdadeira poesia pressupõe, sem dúvida, a sinceridade e o desejo real de suscitar no Outro alguma sensação verdadeira. Trata-se de um desafio para o qual todos estamos devidamente preparados, independentemente do grau de escolaridade.

            Rainer Maria Rilke, poeta nascido em Praga, escreveu certa vez uma série de cartas contendo sugestões a um jovem que pretendia escrever poemas. Afirmou que para escrever bem é preciso perceber em sua própria alma os motivos que o levam a dizer certas coisas.  Pede ao jovem que expresse “seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas”.

            Vivemos agora, portanto, a época em que todos soltam o poeta de dentro de si, espalhando mensagens de amor, de carinho e de solidariedade. Que estes estímulos nos sirvam de referência para conduzirmos o cotidiano e orientem sempre os nossos pensamentos.

             Erlon José Paschoal



Escrito por Erlon José Paschoal às 13h44
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                                                     Gil em Vitória

Sempre fui um admirador do músico e compositor Gilberto Gil, que no último dia 23 proferiu uma conferência com o tema “Política e Cultura no Mercado da Música”, no Teatro Carlos Gomes, encerrando o Programa de Capacitação em Música organizado pela Secult e o Sebrae, em Vitória.  Seguro e sereno, o ex-ministro e popstar mostrou ao público por que a sua passagem pelo Ministério da Cultura mudou paradigmas e colocou a cultura na pauta principal das políticas públicas que visam ao desenvolvimento social e à ampliação do conceito de cidadania.

Além de demonstrar competência e todo o conhecimento necessário para se compreender os impactos provocados pelas novas tecnologias na circulação do produto artístico – em especial da música -, Gil encantou a platéia com suas proposições no tocante aos possíveis caminhos a serem percorridos pelos artistas em busca de espaços de atuação e de recursos financeiros. Enfatizou a necessidade de uma postura sempre ativa do artista, a fim de divulgar o seu trabalho e fazê-lo chegar ao público, em uma sociedade saturada de ofertas de toda ordem.

Naturalmente, tal objetivo só pode ser atingido se a obra tiver qualidade artística suficiente e estar em sintonia com os anseios e sonhos do público desejado. Isso não significa somente qualidade técnica, mas criatividade e valor social do produto artístico a ser consumido.

Para quem conheceu Gil como ministro não foi novidade ver como ele transita com muita propriedade sobre temas e aspectos relevantes da política cultural e da inserção do artista em uma sociedade em constante processo de transformação. Ao longo de sua trajetória como ministro sempre salientou em seus discursos o tripé da política cultural responsável - “a cultura como usina de símbolos, como direito e cidadania e como economia” – e a força da diversidade cultural brasileira fazendo dela uma das alavancas e principais estratégias do nosso desenvolvimento.

Vale citar aqui alguns programas e propostas implementadas sob a sua gestão, como o Cultura Viva, o Plano Nacional de Cultura, já aprovado pelo Congresso Nacional, institucionalizando questões importantes para o futuro das políticas culturais, tais como a legislação de direitos autorais e o financiamento público às artes, e também o programa Cultura e Pensamento, que incentiva a reflexão e a produção crítica sobre fatores que estruturam a cultura e a sociedade.

Tive o prazer de trabalhar no Ministério da Cultura sob a sua batuta durante 3 anos, primeiro na SPC (Secretaria de Políticas Culturais) colaborando na formulação de políticas a serem implementadas, e depois, na coordenação de projetos internacionais, tais como a Copa da Cultura na Alemanha e a participação do Brasil na Feira Internacional de Arte Contemporânea (ARCO) em Madri. Pude constatar assim a firmeza e a suavidade com que conduzia as suas equipes sem nunca perder a alegria, a generosidade e a capacidade de sonhar.

O público deixou o Teatro Carlos Gomes estimulado a descobrir novos caminhos e territórios para a sua atividade artística e satisfeito em ter compartilhado esse momento tão importante da vida cultural do Espírito Santo.

Erlon José Paschoal

 

 



Escrito por Erlon José Paschoal às 13h43
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                                  Anchieta de todos nós

O teatro, por seu poder de persuasão, prestou-se sempre às mais variadas utilizações. Os regimes totalitários fizeram dele uma arma eficaz na mobilização das massas; a Igreja serviu-se dele para ampliar o seu número de adeptos e transmitir os seus dogmas e, hoje, a publicidade usa e abusa de recursos teatrais para induzir as pessoas a consumirem o que há de mais supérfluo e desnecessário. O Padre José de Anchieta também recorreu ao teatro e à poesia com finalidades outras que não exatamente as de criar uma obra artística.

A Societas Jesu (Companhia de Jesus), fundada por Santo Inácio de Loyola em 1534, dedicou-se a sair pelo mundo espalhando a fé católica. Os jesuítas consideravam-se verdadeiros "soldados de Cristo", formados para combater - segundo o seu lema - ad majorem Dei gloriam (pela maior glória de Deus). Recebiam uma sólida formação intelectual, nos mais diversos ramos da cultura, e havia entre seus discípulos muitos representantes da elite social da época.

Em 1553, o Padre José de Anchieta, então com 19 anos, mudou-se definitivamente para o Brasil, onde morreu, em 1597, sendo enterrado no Espírito Santo, na localidade que hoje leva o seu nome. Na vida insípida e rústica da colônia, praticamente não havia espaço para os intercâmbios intelectuais, a troca de ideias e muito menos para a arte. O grande mérito dos jesuítas - sobretudo de Anchieta - foi introduzir na colônia a prática do ensino e da arte. Chegaram a criar uma pequena rede de escolas e colégios, até serem expulsos pelo Marquês de Pombal, em 1759, por contrariarem os interesses da Coroa.

Os autos de Anchieta são mais obras doutrinárias do que artísticas, empregando ora o português, ora o tupi, ora o espanhol, de acordo com o público e seus interesses pedagógicos. Trazem quase sempre as figuras do Bem e do Mal (o Anjo e o Diabo), da Virtude e do Vício, e têm como base as Moralidades medievais. Simplificam o destino humano, pressupondo uma visão maniqueísta e esquemática da realidade.

Nesta nossa época globalizada repleta de antagonismos, anomalias morais e lutas intensas de interesses, a atuação de Anchieta soa-nos inocente, idílica e enriquecedora, tanto mais que a maioria dos portugueses que para cá vieram não passava de escória da Metrópole. É preciso, portanto, considerarmos Anchieta em sua verdadeira dimensão humana, sem esquecermos o significado ambíguo de sua atividade e as contradições inerentes a sua missão.

De qualquer modo, Anchieta antevia um futuro brilhante para os habitantes da ilha de Vitória, "pois tem este lugar/ nome de Vitória, e palma,/ sempre deve triunfar!" O Palácio que leva o seu nome, em sua nova função, incentiva a difusão de valores democráticos e de cidadania, fortalecendo as nossas identidades, a percepção crítica da realidade e a promoção da dignidade humana, oferecendo-se também como uma nova oportunidade de lazer cultural.

Anchieta não imaginava, com certeza, que o Espírito Santo se tornaria um espaço multiétnico receptivo a diversos processos migratórios e dotado de manifestações culturais de múltiplas origens. Nesse sentido, alguns séculos depois, nosso triunfo maior reside em nossa ampla e variada capacidade de expressão cultural.

 Erlon José Paschoal


Escrito por Erlon José Paschoal às 14h11
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                                 Cultura na mídia

 

Os principais meios de comunicação hoje têm potencialidades globais, anulam as distâncias e permitem o contato em tempo real com fatos e pessoas em quaisquer partes do mundo. Desse modo, eles nos fazem sentir que somos parte de um todo maior, de um mundo global e, ao mesmo, tempo, de um mundo local, com costumes, contradições e uma cultura própria. Esses dois aspectos da realidade - o local e o global - povoam então o cotidiano de todos os cidadãos, onde quer que estejam, e criam sem dúvida uma tensão com a qual temos de nos defrontar diariamente: a de nos sentirmos cidadãos do mundo e simultaneamente integrantes de pequenas comunidades, com todas as suas especificidades.

Por outro lado, os meios de comunicação podem ser uma ferramenta eficaz no processo educacional e cultural, democratizando o acesso às informações e contribuindo de maneira ampla para aproximar indivíduos de todas as nacionalidades e origens aprofundando as relações entre diferentes  povos e culturas.

O pensador italiano Antonio Gramsci, certa vez, ao abordar a difusão da produção cultural numa comunidade, falou de um tripé extremamente importante para a circulação e a democratização do conhecimento e dos valores culturais. Num  ponto colocou os intelectuais, os artistas e os criadores de valores culturais; noutro, os educadores, responsáveis pela disseminação desses valores e pela elevação cultural da população,  e por fim a mídia, fundamental para a difusão ampla das informações tornando-as acessíveis a todos.

As mídias, portanto, podem exercer um papel fundamental não só na democratização do saber, mas sobretudo na construção da identidade, promovendo o acesso aos bens culturais e à valorização das manifestações culturais locais.

No tocante à chamada grande imprensa, o Espírito Santo não é nada diferente do restante do país: os meios de comunicação em geral retransmitem um padrão estabelecido por suas respectivas matrizes no Rio de Janeiro e/ou em São Paulo. O pouco espaço que sobra, de acordo com esse padrão, é dedicado aos acontecimentos locais, que normalmente se resumem a alguns poucos fatos ocorridos na capital do Estado. A mesma estrutura compartimentada caracteriza em geral os jornais e as rádios.

Como curiosidade, lembro aqui que, segundo as últimas estatísticas, 88% dos brasileiros ouvem rádio e vêem TV todos os dias, mas 68% não lêem revista, 62% não lêem jornal e 79% não leem livros além dos obrigatórios na escola.

Como então buscar uma aproximação entre a grande imprensa e o artista? De um lado, artistas, produtores e gestores culturais não podem permanecer voltados unicamente para suas dificuldades individuais. Faz-se necessário ver a cultura como um processo maior, considerando o seu potencial de transversalidade e de relações com outras áreas da vida social. De outro, criar caminhos de trabalho conjunto com os profissionais da mídia, vendo neles parceiros imprescindíveis para a construção de uma identidade cultural capixaba plena e em constante processo de transformação.

Está aí mais uma tarefa de todos.

 

 Erlon José Paschoal



Escrito por Erlon José Paschoal às 14h07
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Kafka sempre

 

         Teve início ontem, o 1º Encontro da República Tcheca no Espírito Santo. Entre os vários eventos programados, a UFES abriga uma série de debates sobre escritores tchecos. Fui convidado para participar amanhã em uma mesa-redonda no Cine Metrópolis que tem como tema “A Metamorfose” de Franz Kafka e a contribuição de Vilem Flusser à cultura brasileira, filósofo tcheco que mudou-se para o Brasil fugindo do nazismo.

Kafka é algo à parte. Trata-se de um escritor que iria povoar para sempre a imaginação humana. Seu nome tornou-se proverbial tal a força de sua influência. Com seus sonhos, seus “pesadelos lacônicos” e suas observações irônicas sobre o comportamento humano, Kafka acabou se tornando um símbolo da sensação de irrealidade presente no cotidiano do homem moderno; eternizou o indivíduo deslocado - a displaced person - tentando compreender a si mesmo num mundo regido por leis inacessíveis. Tive o prazer de traduzir para a Editora Estação Liberdade esta sua obra tão marcante na cultura ocidental, A Metamorfose.

         A primeira leitura do texto, somente para os amigos, provocou intensas gargalhadas na pequena platéia. Dado relevante que evidencia o tratamento tragicômico da narrativa e o seu sutil poder de fazer rir. É a fábula de Gregor Samsa que um belo dia acorda metamorfoseado num monstruoso inseto. Uma espécie de contos de fada realista que a princípio pode causar no leitor uma leve sensação de incômodo, mas suscita também um sorriso irônico de cumplicidade em quem capta o humor subjacente na sucessão de acontecimentos triviais, perpassados pelo olhar mordaz e sutil do narrador. Trata-se sem dúvida de um humor estranho que manifesta uma certa descrença no mundo e, ao mesmo tempo, simboliza a situação típica do homem moderno frente às engrenagens sociais cada vez mais complexas, incompreensíveis e cruéis.

            Essa novela concisa e impressionante se presta naturalmente às mais variadas interpretações por sua característica de obra clássica e definitiva. Auxiliados por teorias psicanalíticas, alguns intérpretes veem como sua matéria-prima o profundo sentimento de culpa do protagonista-autor frente ao pai, sendo por isso condenado a se arrastar pelos cantos escuros da casa. Outros consideram o personagem central um símbolo da existência medíocre e infame de um subalterno entregue à arbitrariedade de seus superiores. Muitos, contudo, identificam nessa obra o símbolo da revolta contra Deus, e o Seu posterior castigo.

Os marxistas enfatizaram na obra de Kafka sobretudo a questão da alienação do homem na sociedade capitalista moderna. Em função da riqueza de significados, ela possibilita, portanto,  infinitas interpretações.

Reler as grandes obras da humanidade será sempre algo salutar e estimulante, sobretudo quando se trata de um escritor que influenciou tão incisivamente a história da literatura universal. Está aí, portanto, um bom pretexto para retomar o contato com a obra de Kafka e se deleitar com  A Metamorfose, considerada por Jorge Luis Borges uma das narrativas mais perfeitas da literatura mundial.

 

Erlon José Paschoal

 



Escrito por Erlon José Paschoal às 14h05
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                                     E o público?

 

                   Ainda hoje muitos artistas do Estado do Espírito Santo se ressentem da falta de público para os espetáculos aqui produzidos, sobretudo, os de dança e teatro. Será que, os prazeres do espírito estariam sendo relegados a um segundo plano? Ou até mesmo abolidos como inúteis? Talvez haja respostas variadas, mas de qualquer modo, uma questão acaba se impondo: que espaço a arte ocupa em nossas vidas?  Que importância a prática artística possui em nossa comunidade?  Que valor todos nós lhe damos, afinal?

                        Por outro lado, eventos como “Agora às 7”,  as apresentações da OFES, o Festival Nacional de Teatro de Vitória, a Mostra ABD, a Circulação Cultural e o Vitória Cine Vídeo, ou as exposições realizadas no MAES e no Palácio Anchieta, por exemplo, recebem sempre uma grande quantidade de público, embora sejam todos gratuitos. As Mostras de Audiovisual no interior mobilizam milhares de pessoas, sobretudo jovens.

                     Sem dúvida, vivemos um momento de reestruturação do comportamento social, gerado basicamente pela evolução acelerada de uma rede mundial de comunicações que liga, unifica e uniformiza democraticamente as relações humanas. Pois bem, nesta época de internet, vídeo, celular, email, orkut, facebook, twitter - sem falar na criminalidade hedionda e no perigo solto nas ruas em função de nossas anomalias sociais -, os estímulos para se ficar em casa são de fato inúmeros. O teatro e a dança são as linguagens artísticas que mais sofrem com a falta de público. Contudo vale uma pergunta: qual a qualidade real dos produtos culturais oferecidos? De fato atendem ao nível de exigência do público atual?

                        Em meio a tudo isso ocorre um fenômeno curioso: pessoas com uma formação cultural significativa - profissionais liberais, professores, publicitários, jornalistas etc. - e os artistas, de maneira geral, pouco cultivam a arte local. É óbvio que o elogio indiscriminado a tudo o que é local denota, além de ignorância, um ufanismo patético e anacrônico. Por outro lado, às vezes realmente é difícil distinguir os amadores dos profissionais, os oportunistas dos competentes, como em qualquer outra atividade. Além disso, um “movimento cultural” só se torna possível mediante o intercâmbio constante e a integração de todos os criadores culturais de uma dada comunidade, em nome de um objetivo comum, independentemente de suas singularidades e opções.

                        Seja qual for a explicação, o fato é que lançam-se livros, montam-se peças, apresentam-se shows, fazem-se exposições, gravam-se CDs, rodam-se filmes, organizam-se concertos, festivais... e não há nenhuma discussão, nenhuma avaliação crítica, nenhuma repercussão efetiva, como se a arte não passasse de uma atividade desprovida de sentido e de finalidade, incapaz de gerar riquezas e de contribuir efetivamente para o aperfeiçoamento das relações sociais e para a evolução espiritual de um povo. O exercício do senso crítico é fundamental para o desenvolvimento cultural de uma comunidade.

                        O que leva então o público a consumir o que produzimos na área da cultura?                   

 

Erlon José Paschoal



Escrito por Erlon José Paschoal às 14h04
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                                           Futuro à vista

             Uma sociedade que ambiciona modernizar-se e evoluir não pode dar-se ao luxo de desconhecer a importância e a necessidade do incentivo à atividade cultural, em todos os seus níveis e setores.

            Além de gerar avanço social, de estimular o espírito crítico, de fomentar a criatividade e disseminar o senso de justiça democrática, à medida em que assegura a todos o direito de acesso aos bens simbólicos produzidos pelo conjunto da sociedade, a atividade cultural gera riqueza e trabalho. A indústria do entretenimento está entre os cinco maiores agentes econômicos do mundo moderno, e a produção artística é, por sua vez, uma de suas megatendências que tem não só uma enorme importância econômica e social, mas é também o elemento diferenciador da imensa quantidade de etnias e povos existentes num planeta globalizado. É preciso então preparar-se para o futuro, adequar-se às exigências impostas pelo avanço tecnológico acelerado e pelo encurtamento cada vez maior das distâncias, e qualificar-se para atuar neste novo quadro, de maneira apropriada e competente.

            No Brasil, está em curso um processo de descentralização cultural que demonstra ser irreversível. Sem dúvida, todas as mudanças profundas e de caráter duradouro necessitam de tempo para se efetivarem. Portanto, seria pertinente investirmos a nossa energia na elaboração e obviamente na execução de ações culturais que criem condições amplas e favoráveis para a produção e o consumo da arte; que valorizem a sua própria história; que fomentem a participação de todos os setores da sociedade e assegurem aos indivíduos o direito de se exprimirem. Cultura é um processo vivo que se faz em conjunto, e para o qual cada cidadão e cada grupo social contribui com suas ações e atitudes. Dessa confluência de propósitos é possível forjar então a própria evolução cultural.

            A palavra “cultura” tem habitualmente dois significados distintos, embora interligados e complementares. No sentido amplo, significa um conjunto de conhecimentos, experiências e saberes que uma geração lega à outra, graças aos quais os indivíduos exprimem suas relações com a realidade. No sentido estrito, trata-se de uma série de práticas e linguagens específicas - teatro, dança, circo, pintura, literatura, escultura, cinema etc. - criadas pelo ser humano para manifestar os seus sentimentos, suas esperanças, seus temores, seus anseios, suas premonições, suas utopias, suas inquietações, dando assim um significado mais amplo e mais profundo ao ato de viver.

O avanço cultural depende, enfim, de um planejamento criterioso, de uma execução responsável e de uma sólida confluência de interesses. Não basta apenas obter sucessos contábeis, é preciso sobretudo almejar resultados humanos efetivos, pois a moeda corrente no futuro será  o resultado da criatividade, do discernimento e das aptidões de cada povo e de cada comunidade. A cultura tem aí um papel preponderante na integração social e regional, no próprio Estado e no país.

            Para que o futuro seja melhor, é preciso imaginá-lo agora.

         Erlon josé Paschoal

 



Escrito por Erlon José Paschoal às 14h35
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                              Arte e entretenimento

Estive presente no último Café Literário realizado no SESC/Majestic, em Vitória no Espírito Santo, que contou com a participação de Flávio Carneiro e Wilberth Salgueiro. O tema era amplo: um passeio pela literatura brasileira. E Flávio fez isso muito bem. Caminhou pelo romantismo e modernismo até chegar aos dias atuais, ressaltando alguns aspectos importantes de nossa emancipação literária.

Destacou a publicação de nossos primeiros romances pelos folhetins nos grandes jornais da época e a formação de um público leitor ansioso por uma narrativa envolvente, composta de personagens reconhecíveis e um cenário cotidiano.  Desenvolveu-se assim no final do século XIX, no Brasil, a literatura como entretenimento e profissão, afinal muitos escritores viviam de seu próprio trabalho que era acompanhado com interesse por inúmeros leitores assíduos dos jornais, sobretudo as mulheres. A narrativa fluente que facilmente se ajustava ao gosto do leitor comum era a forma naturalmente imposta por aquele tipo de publicação, o que levou muitos autores a se aperfeiçoarem em um estilo repleto de peripécias e de enredos adequados ao espaço diário ocupado nos jornais por este tipo de publicação.

O Modernismo, por sua vez, rompeu com essa estrutura de obra digerível por todos, ao lançar-se em experimentos temáticos e de recriação da linguagem abrindo caminhos para diversas linhas evolutivas trilhadas pela literatura brasileira no decorrer do século XX. Para Flávio, a literatura produzida hoje teria, portanto, um vínculo evidente com aquela produzida no final do século XIX, na medida em que hoje o entretenimento tornou-se um dos aspectos da vida atual determinantes da sensibilidade do leitor, o que não implica necessariamente em qualidade inferior ou literatura “menor”.

A distinção muitas vezes discutível e até mesmo preconceituosa para muitos, entre literatura de entretenimento, portanto de baixa qualidade, e literatura canônica, portanto de alta qualidade, pode levar a uma compreensão falsa do fenômeno do prazer da leitura no mundo atual. A lógica do entretenimento perpassa praticamente todas as relações sociais em uma sociedade midiática fundamentada na comunicação.  Até mesmo os jornais televisivos transformaram-se, adequando-se à necessidade de “entreter” a platéia e não mais apenas passar informações, definido pelos americanos como  infotainment.  

Onde isso pode nos levar: a não discernir mais os valores construídos em milênios de História, o que poderia nos conduzir à barbárie? Ou a uma evolução que aponta para novas formas de valorar as criações humanas? As redes virtuais, por sua vez, alteram os modos de ver e de ler, as maneiras de se fazerem amizades ou estabelecer relações amorosas. 

O debate levantou várias questões que, sem dúvida, estimularam a platéia a continuar refletindo na volta para casa. Compõem os desafios que a vida moderna nos impõem. Enquanto isso vamos desfrutando os prazeres insubstituíveis oferecidos pela literatura. Para Cecília Meireles, a literatura não é um mero passatempo, é uma nutrição. Continuemos então a nos nutrir.

 

Erlon José Paschoal

 

 



Escrito por Erlon José Paschoal às 18h55
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         A retirada anunciada

 

Recentemente, o presidente Barack Obama anunciou para breve a retirada das tropas americanas do Iraque para alívio de todos os que consideram a guerra um mal irremediável. A cultura islâmica é única em suas criações e um dos pilares importantes de nossa civilização. A sua demonização leva ao acirramento das diferenças e à rejeição irracional, o que contribui para a continuidade de políticas desumanas e sangrentas. Uma atitude sábia, portanto, do maior mandatário americano.

A ânsia por petróleo e por poder, somada à arrogância e à prepotência, levou o então presidente fanfarrão, o neonazista pós-moderno Bush, eleito de maneira fraudulenta, a ridicularizar a ONU e a escarnecer de outras culturas. Depois do ataque às torres gêmeas, ele investiu contra os direitos humanos internacionais, ao atacar um dos povos mais pobres do planeta, ainda que fosse governado por um ditador.

Exibindo bombas de alto poder destrutivo e armamento sofisticado, os americanos mostraram que são o único povo do mundo a possuir armas de destruição em massa jamais vistas, testadas naqueles povos habitantes dos desertos. Aviõezinhos bilionários soltando bombas inteligentes, partindo de porta-aviões hiper-modernos, provocaram o orgulho da maioria dos cowboys e dos bons rapazes americanos, sempre tão empenhados em defender o mundo dos facínoras e dos psicopatas. 

O terrorismo americano mostrou-se bem mais preciso, eficiente e sofisticado do que todas as formas de ataques traiçoeiros praticados até o momento. A possibilidade de se escolher o ponto exato onde se encontra o indivíduo a ser eliminado, direcionar uma bomba inteligente para aquele ponto via satélite a milhares de quilômetros de distância, com uma margem de erro mínima, sem dúvida revolucionou o exercício do terror e tornou a execução de personas non gratas uma atividade técnica, destituída de quaisquer escrúpulos ou sentimentos; fez do homem-bomba ou do carro-bomba algo obsoleto e primitivo, posto em prática apenas por pessoas desesperadas e despreparadas para as novas formas de aniquilação e extermínio do próximo. A tortura, por sua vez, foi adotada e assumida pelo exército/polícia americana como forma lícita de arrancar informações de prisioneiros, contrariando inescrupulosamente todas as normas legais e fazendo dos porões das prisões do Afeganistão e do hediondo presídio de Guantánamo verdadeiras filiais do Inferno.

Acompanhamos ao longo dos últimos anos uma carnificina online, asséptica e high tech, na qual a dor e o sofrimento individual foram substituídos pelas imagens acintosamente cinematográficas e pelas explicações técnicas dadas por especialistas em armamentos up to date e em bombas fashion com poder de destruição jamais dantes imaginados.

Não sabemos para onde nos levará tudo isso, nem como será o mundo depois desta invasão insana e criminosa, mas devemos buscar em conjunto alternativas  para um mundo melhor e mais justo, no qual prevaleça o respeito pelo semelhante e a convivência pacífica entre culturas e comportamentos diversos. Parabéns Obama.

 

Erlon José Paschoal



Escrito por Erlon José Paschoal às 18h54
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                                         A arte de educar

 

Discute-se hoje em todas as esferas públicas acerca da necessidade de uma parceria cada vez mais intensa e estrutural entre Educação e Cultura. Todos manifestam a certeza de que educar um ser humano no e para o século XXI é uma tarefa complexa    e desafiadora.

Por meio da arte, o ser humano recria e apreende o mundo dando-lhe uma dimensão que ultrapassa a mera lógica cotidiana, tendo, assim, acesso a experiências que transcendem a linearidade do pensamento discursivo. A arte incentiva a descoberta - algo de suma importância no processo de aprendizagem - e estimula a sensibilidade, levando o educando à compreensão mais profunda do mundo que o cerca e de si mesmo. Ela desenvolve, portanto, a auto-confiança e cria condições para que o indivíduo possa escolher conscientemente o seu próprio caminho.

            A mescla entre prática educacional e métodos artísticos forma o centro de forças da pedagogia atual. Desse modo a arte pode atuar num processo educativo permitindo ao indivíduo vivenciar e desenvolver suas potencialidades, buscando a coerência entre pensar, sentir e agir. Daí a necessidade de se formarem e reciclarem profissionais interessados em fazer uso do instrumental oferecido pela arte.

         Ressalta-se aí então um dos elementos básicos do instrumental artístico na prática educacional: o exercício constante e pleno da criatividade. O termo “criatividade” - palavra-chave na aprendizagem da arte - tem um sentido bastante amplo. Segundo alguns teóricos, pode-se defini-la a partir de quatro categorias: ela pode ser considerada do ponto de vista da pessoa que cria, isto é, levando-se em conta suas características pessoais, incluindo aí suas atitudes, hábitos e valores. Pode também ser explicada por meio de processos mentais - motivação, percepção, imaginação, auto-superação etc. -, que o ato de criar mobiliza. Uma terceira via destaca as influências externas - meio ambiente, família, escola, extrato social etc. -, e finalmente podemos entender a criatividade em função de seus resultados, como por exemplo, as invenções e as obras de arte em geral.

De qualquer modo, sabemos que ser criativo significa estabelecer novas conexões entre as coisas e aproximar símbolos diversos de uma maneira nova, recombinando-os para depois expressá-los de maneira única e original, seja na Ciência, na Arte ou na vida.

Num processo de aprendizagem que dê primazia à criatividade em detrimento da memorização mecânica de fatos acabados, o indivíduo amplia a sua visão de mundo e exercita a sua capacidade de entendimento da realidade circundante, em vez de desperdiçar todo o seu tempo decorando frases feitas e fórmulas vazias. Ao mesmo tempo em que ouve e observa, ele atua e interfere em seu meio; sem desrespeitar ou anular o próximo, ele pode então realizar-se como indivíduo e como cidadão.

Educar e formar o indivíduo para uma sociedade mais humana e mais justa, portanto, não pode em hipótese alguma prescindir do rico instrumental desenvolvido pela arte nesses últimos dois mil anos de História. Pensemos então a nossa educação cada vez mais com arte!

 

Erlon José Paschoal

 



Escrito por Erlon José Paschoal às 19h11
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                           Certezas abaladas

 

            Por vezes faz bem reler autores que questionam as estruturas tidas como inabaláveis e perenes, tanto na arte quanto na vida. Como sabemos é intrínseca à criação artística uma certa insubordinação e crítica da ordem vigente. Muitos artistas e filósofos reformularam conceitos, elaboraram ideais utópicos e propuseram novas linguagens para se abordar e compreender a realidade. Entre eles, o teatrólogo francês Antonin Artaud. Sua principal obra “O Teatro e Seu Duplo” pode ser encontrada em qualquer livraria.

Artaud exalta a entrega às forças naturais primitivas, o rompimento das amarras sociais e almeja atingir as dimensões mais profundas do espírito, provocando o encanto e o fascínio. Faz uso de termos abstratos e ambíguos, tais como Guerreiro, Duplo, Peste, Crueldade, colocando no palco não mais temas psicológicos ou sociais, mas míticos e cósmicos.

Suas descrições do teatro ideal são virulentas, poéticas e pulsivamente emotivas, por vezes bombásticas e concludentes. A sua premência de se expressar e a sua rejeição do abuso predominante e excessivo das palavras, leva-o à impossibilidade de compartilhar suas ideias com seus contemporâneos, e ao vazio: “Todo verdadeiro sentimento é na verdade intraduzível. Expressá-lo é traí-lo. Mas traduzi-lo é dissimulá-lo. A expressão verdadeira oculta aquilo que manifesta”. Desse modo, em sua não definição, a linguagem concreta, espacial e física do teatro, “faz surgir a idéia de uma certa poesia no espaço que se confunde com a bruxaria”.

Artaud foi um vate, um visionário, que dialogava com as forças inconscientes e pretendia resgatar o poder primitivo e transformador do teatro.  Ao mesmo tempo em que rejeitava as formas teatrais então convencionais, ele almejava revolucionar o convívio social, retomando tradições ocidentais instigadoras e sendo fortemente influenciados pelo teatro oriental.

Recorrendo às imagens presentes nas pinturas de Grünewald, Brueguel, Goya e Bosch, Artaud vislumbra um espetáculo ideal, composto por verdadeiras tentações, capaz de extrair as forças primitivas presentes nos mitos e no inconsciente das massas, denominando-o Teatro da Crueldade. Nele, tal como nos ritos e na magia, o público deve ser levado ao delírio e ao êxtase, vivenciando a totalidade física e espiritual do Ser. Os seus ingredientes básicos são a ruptura, a criação de uma linguagem gestual comunicativa e a primazia da encenação em detrimento do uso estático da palavra.

Em sua busca de um teatro que despertasse os nervos e o coração dos homens, Artaud chega à formulação de uma concepção teatral que insufle miticamente as massas, levando-as a acreditar nos sonhos apresentados no palco - mas como sonhos de fato e não como “decalque da realidade” - estimulando no público a “liberdade mágica do sonho”. Artaud é categórico: “farei aquilo com que sonhei, ou não farei nada”. 

É preciso sem dúvida coragem para ler e cultivar autores, cujas ideias abalam nossas certezas e insuflam vida em nossas atitudes e gestos automáticos. Ainda bem que eles existem.

 

Erlon José Paschoal

 

 



Escrito por Erlon José Paschoal às 13h30
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                               O jovem como criador

            Cada vez mais em nosso Estado os jovens se agregam tendo algo em comum: o interesse pela arte e pela cultura. Mas quem são eles? O que pensam? O que querem? Como imaginam o presente e o futuro? Para o pedagogo Antonio Carlos Gomes da Costa, o “futuro foi feito para ser inventado e construído”.  E de maneira coletiva. Daí os encontros em todas as classes sociais movidos por causas diversas para compartilhar inquietações e formar comunidades que atendam às suas necessidades de expressão e comunicação. Mas será que todos têm a sua disposição o instrumental, os conhecimentos e as oportunidades para realizar tal intento?

            As respostas a estas e a outras questões começam a ser esboçadas em espaços comunitários, em turmas e em movimentos que juntam pessoas tão diversas e, ao mesmo tempo, tão semelhantes em seus anseios e em seu potencial criativo.  Sabemos que o jovem se percebe como criador e como um ser em constante processo de transformação física e psicológica. Por isso a sua enorme capacidade para descobrir novos caminhos e para reelaborar  as relações e os valores humanos. É nesta etapa da vida que a sua identidade  e a sua inserção social se materializam.

            A excitação de estarem juntos e perceberem o significado e o alcance das ações coletivas contagia a todos os componentes de um grupo unidos em torno de ideais ou causas comuns. Sobretudo nesses nossos tempos de novas mídias e novas formas de agregação e de compartilhamento de ideias e de manifestações artísticas. Nesse aspecto, as redes de relacionamento representam os espaços virtuais adequados a tal propósito. Merecem destaque aí as redes sociais com foco na arte e na cultura destinadas a dar visibilidade à intensa produção artística dos jovens.

Quando nos referimos às redes virtuais que agregam jovens pensamos imediatamente no Orkut. No Brasil, por exemplo,  são aproximadamente 8 milhões de usuários interconectados trocando informações e construindo um imaginário independentemente dos meios de comunicação de massa. Para muitos pais e educadores ainda avessos às novas tecnologias, essa massa gigantesca de jovens nada mais faz do que trocar informações inúteis. No entanto, não se pode negar que se trata de uma rede eficaz e de enorme capacidade de interação e de relacionamento social.  

A rede cria identificação e comprometimento entre pessoas, grupos e comunidades, torna-se uma construção contínua de relações interpessoais e uma forma acessível de disseminação de expressões culturais e de conhecimentos. A velocidade com que fluem e se socializam, num mundo que evolui com base nas tecnologias da comunicação e informação, acarreta profundas mudanças na organização da sociedade, da economia, das relações humanas e das expressões artísticas e culturais.

A prática artística em todas as suas modalidades proporciona sem dúvida momentos de celebração coletiva imprescindíveis para fomentar as criações de nossas juventudes e dar-lhes uma dimensão social. Novos tempos pedem novas formas de abordagem da preparação do jovem para o futuro. Eis aí um grande desafio para todos que imaginam e querem um futuro melhor.

Erlon José Paschoal



Escrito por Erlon José Paschoal às 14h26
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Cada palavra por um fio

 

A UFES acaba de lançar, por meio do programa de pós-graduação em Letras, a revista “Contexto” n. 16. Nela tive o prazer de publicar o texto “Uma recriação fiel: diálogos entre o autor e o seu tradutor”, resultado de uma palestra ministrada ao lado do amigo Wilbert Salgueiro e mediada por Jô Drumond. A platéia repleta no IC-4 tornou o momento mais agradável e prazeroso, além de rico em perguntas e manifestações.

Entre 1963 e 1967, Guimarães Rosa e Curt Meyer Clason, dois grandes conhecedores de vários idiomas, trocaram perto de 60 cartas, registrando discussões linguísticas profundas sobre as traduções da obra do escritor mineiro para a língua  alemã.

Quase 40 anos depois, a Editora Nova Fronteira junto com a Academia Brasileira de Letras e a UFMG, lançaram em todo o Brasil o livro João Guimarães Rosa  - Correspondência com  seu tradutor alemão Curt Meyer Clason, com edição, organização e notas de Maria Apparecida F.M. Bussolotti, cujas cartas tive a honra de traduzir.

Ao ler então a minha tradução para o português de suas cartas enviadas a Guimarães Rosa, assim me escreveu Curt Meyer Clason: "Li com atenção e curiosidade a tradução de minhas cartas dirigidas a João Guimarães Rosa...:magnífica!" Além de uma ponta de orgulho, tive a real sensação de um dever cumprido, pois esta  avaliação, feita por um dos maiores tradutores do mundo ocidental, foi também motivo de alegria e certeza de que consegui transmitir as sutilezas discutidas por dois grandes intelectuais do mundo ocidental.

Além da consulta constante aos livros de Guimarães Rosa citados ao longo das cartas e a pesquisa do significado das raízes de determinadas palavras alemãs utilizadas por Clason, em sua busca de uma correspondência perfeita com as criações rosianas, procurei dar o tom de coloquialidade de uma conversa entre dois grandes amigos e colaboradores. Mas sem perder de vista de que se tratava de questões complexas e extremamente importantes para a transposição de uma obra tão brasileira e, ao mesmo tempo, tão universal, para um contexto tão distante e diverso como o alemão. Ao final, ficou a sensação de ter sido bem sucedido.

Tradutor de Drummond, Mário de Andrade, João Cabral e Ferreira Gullar, entre outros, C.M. Clason assumiu o grande desafio em sua vida de traduzir para o alemão quase toda a obra de Guimarães Rosa. Em discurso na Academia Brasileira de Letras em 1965, ao receber a medalha Machado de Assis por suas traduções, afirmou: "Para Guimarães Rosa, escrever era inspiração, impulso, delírio e, ao mesmo tempo, trabalho de laboratório, montar, rejeitar e procurar novamente”. Escrever era a prova incessante de sua vida.

Guimarães Rosa assim definiu o trabalho de C.M. Clason : "É o melhor de todos os meus tradutores, provavelmente um dos melhores que há no mundo."

O livro é de fundamental importância a todos que se interessam por literatura, interculturalidade e, sobretudo, pelo fenômeno da tradução. Ou nas palavras de Guimarães Rosa: “A gente morre é para provar que viveu”. Parabéns aos organizadores da revista.

 

Erlon José Paschoal



Escrito por Erlon José Paschoal às 14h23
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                         Política e Cultura

 

Neste ano eleitoral faz-se necessário enfatizar que as artes e a cultura são fatores de aprimoramento econômico e social e refletem, sobretudo, o universo simbólico de um povo. Não são um luxo, um resíduo, mas o suporte para a conquista da soberania e da liberdade.

 

O Estado do Espírito Santo tem uma riqueza étnica ímpar, decorrente dos inúmeros imigrantes que aqui aportaram e mesclaram suas culturas de origem com os habitantes locais, resultando numa pluralidade de ritmos, timbres, danças e elementos visuais expressos em folguedos originários e releituras de manifestações artísticas similares. Há um sentido místico religioso, de louvor, de sentimento coletivo na música, na coreografia e nas letras dos cantos. As criações contemporâneas, por sua vez, retrabalham o passado e nos projetam para o futuro através da assimilação de novas linguagens e novas modalidades de expressão. Incentivar esta diversidade criativa é, portanto, dever da política pública na área da cultura.

 

A cultura tem assim um papel estratégico na construção de um Estado socialmente mais justo e igualitário. Não é algo meramente decorativo, ornamental, mas a base da elaboração e da revalorização da identidade, fundamental para o desenvolvimento socioeconômico, e capaz de gerar trabalho, redistribuir renda e de atrair divisas para o Estado.

 

Uma política cultural democrática almeja sempre atingir o maior número de pessoas e não ficar restrita a elites privilegiadas, nem ser um balcão de serviços. Pressupõe ampliar o acesso aos bens culturais e planejar a boa gestão dos recursos públicos garantindo qualidade e abrangência.

 

Pressupõe também o fomento a novas linguagens artísticas, através de ações inovadoras, apoiando e incentivando trabalhos de experimentação e pesquisa. É, pois, na interação entre memória e inovação, imaginação e técnica, tradição e tecnologia, e na necessidade de se produzir reflexões críticas, que se fundamenta o aperfeiçoamento sociocultural.

 

Hoje, quando se busca refazer conceitos e metodologias, e a pluralidade de matrizes culturais abrem novas formas de investigação e atuação política, a cultura se mostra um eficiente campo transdisciplinar. Assim sendo, ela faz convergir metas e métodos comuns, o que a capacita para interagir com fenômenos e relações sociais diversas.

 

O conceito contemporâneo de cultura abrange a cidadania, a convivência democrática, a diversidade de expressões, as novas tecnologias e a ética.  A cultura é livre, aberta, plural e, se há um caminho que ressignifique as conquistas da civilização, valores como justiça, liberdade e paz, ele passa pelo entendimento do papel da cultura no processo de transformação social. Nesse sentido, ela se articula com o conjunto de políticas públicas, prioritariamente com as de educação, turismo, ação social e desenvolvimento econômico.

Que os debates, que em breve se iniciam, sobre programas eleitorais em importantes esferas do poder público dêem a devida relevância à cultura e aos seus desdobramentos.

 

Erlon José Paschoal

 

 

 



Escrito por Erlon José Paschoal às 11h42
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Gestão da diversidade cultural

Nestas últimas décadas acompanhamos em todo o mundo uma série de seminários e debates acerca da diversidade cultural e de seus desdobramentos políticos e sociais, que pressupõem o respeito pelo outro e pelo diferente e a inserção de economias emergentes no cenário mundial, nas quais o produto cultural ganhou um amplo significado nas trocas globalizadas de mercadorias de alto valor agregado.

Necessitamos agora criar pontes entre o conceito de diversidade cultural, em toda a sua amplitude e ramificações, e as práticas a serem implementadas pelas políticas públicas. Nosso país, povoado por civilizações indígenas e colonizado por europeus e afro-descendentes, tornou-se um espaço multiétnico, receptivo a vários processos imigratórios e, por conseguinte, palco de hibridações e miscigenações de toda ordem. A abrangência deste conceito transforma-o também num potente instrumento político de emancipação, não só das mazelas do colonialismo, como também das desigualdades estruturais internas aprofundadas com a globalização.

A miscigenação, aliás, foi vista muitas vezes ora como a degradação da raça, ora como o maior exemplo da democracia racial; e os povos nativos ora foram considerados selvagens em seu estado natural, ora seres especiais dotados de uma enorme quantidade de futuro, por parte dos chamados países civilizados. Esse processo histórico foi o fundamento da criação da nossa identidade nacional.

Hoje a “geléia geral” é o nosso traço distintivo, o nosso orgulho, o nosso valor cultural maior. Por isso é tão necessário considerá-la como referência fundamental nas políticas públicas da cultura. A consciência da diversidade cultural pressupõe, portanto, o respeito mútuo e a convivência pacífica, base para a construção de um mundo mais justo e mais igualitário, de uma nova ética e de novos paradigmas que devem fundamentar a relação entre as várias comunidades.

Inseri-la na agenda político-econômica que vise ao desenvolvimento humano não é um processo fácil, pois altera estruturas de vulnerabilidade e de poder ao propor uma revalorização das identidades culturais e opondo-se aos padrões homogeneizados de consumo cultural.

Um dos traços mais marcantes do Espírito Santo, como sabemos, é justamente a formação múltipla, multifacetada, em função das inúmeras etnias que se encontram na base de sua história e de sua configuração enquanto Estado.

Assumir a diversidade, portanto, é assumir a própria condição de existência, a história e as heranças, a maneira de ser, de pensar e de agir e, obviamente, as contradições que são, no fundo, a mola propulsora que impulsiona o indivíduo e as comunidades a transformar e a recriar os seus valores e o seu universo simbólico, a partir de linguagens e manifestações culturais das mais diversas origens e matizes.

Num mundo globalizado, no qual prevalece o poder econômico em todas as suas ramificações, é imprescindível e necessário criar mecanismos de defesa da diversidade humana e cultural, fonte da beleza e criatividade, e do prazer de se viver em sociedade.

Não se trata de conservá-la tal como foi ou é, mas de garantir que continue existindo e se transformando, pois ela se fundamenta na inovação, na criatividade e na assimilação contínua de inúmeras influências. Não é apenas herança do passado, mas matéria-prima para um projeto do presente e do futuro que contemple o conjunto da sociedade. 

Erlon José Paschoal



Escrito por Erlon José Paschoal às 11h42
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