Imaginando a flor Na última semana, Afonso Cláudio foi palco da “1ª Mostra Capixaba de Cinema Rural”. O Centro Cultural José Ribeiro Tristão ganhou uma cenografia com referências cinematográficas dando destaque às 16 obras que ali seriam apresentadas, representando os 16 municípios da região Centro-serrana. Localizado no alto de uma colina, com uma vista que abarca toda a cidade e as montanhas à sua volta, o visitante sentia de imediato um deleite todo especial ao se defrontar com a beleza e a magia da paisagem. Resultado de quatro meses de oficinas ministradas a jovens entre 14 e 24 anos, durante as quais eles assimilaram as técnicas básicas para a criação de um documentário sobre a sua cidade e as figuras humanas marcantes que a habitam, a Mostra contou com a presença entusiasmada de pelo menos 700 adolescentes oriundos dos municípios concorrentes aos cinco troféus ofertados. Além de assistirem aos próprios filmes e a uma programação paralela que incluía apresentações musicais e películas em 35mm, a convivência saudável e a troca de idéias naquele cenário incomum foi um dos pontos marcantes do evento. A qualidade técnica e estética dos 16 vídeos apresentados era desigual, mas percebia-se na maioria deles uma tentativa de retratar a si mesmo e ao seu habitat de maneira verdadeira e sincera. Das belezas naturais às áreas ambientais ainda intocadas, “onde a mão do homem ainda não botou o pé”, como afirmou um dos entrevistados, ao cotidiano difícil dos trabalhadores do campo, os filmes mostraram um painel significativo da região, a partir da ótica dos jovens realizadores que faziam das cenas registradas um motivo de orgulho para as suas origens e o seu universo rural. A linguagem audiovisual, por sua modernidade e poder de persuasão, mostra-se muito eficaz para a elaboração de novos imaginários e abre caminhos para vislumbrar futuros e entender melhor o presente. A reação da platéia a cada filme exibido demonstrava o prazer de estar presente naquele momento especial e uma sensação de desafio superado. Envolver-se com uma linguagem aparentemente distante de sua realidade aguçou naqueles jovens a percepção de serem partícipes do mundo contemporâneo e de poderem contribuir com suas impressões para uma melhor compreensão do mundo que os rodeia. A simples possibilidade de se oferecer aos jovens, que habitam regiões distantes dos grandes centros urbanos, condições de se expressarem livremente e de se manifestarem através da arte resulta em processos novos de abordagem da realidade e de construção do futuro. O estímulo para comunicar os próprios sentimentos e os de sua comunidade desencadeia ações participativas solidárias e aponta para a consciência de outras formas de se criar o futuro. Num dos filmes exibidos, que abordava o cultivo de orquídeas, constatamos que a flor de uma delas pode demorar até doze anos para desabrochar. Em meio às explicações de todo o trabalho e enxertos necessários até que isso aconteça, um dos entrevistados afirmou que seu sonho era imaginar a flor que ainda não se abriu. Uma bela metáfora de como imaginamos o futuro. Erlon José Paschoal
Escrito por Erlon José Paschoal às 17h53
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A ÚLTIMA OBRA Com seus inúmeros eventos, a Biblioteca Pública Estadual do Espírito Santotem se tornado um ponto de encontro para troca de idéias, debates, intercâmbio entre pensadores e interessados em literatura e espaço de produção de conhecimentos. Recentemente participei de uma mesa redonda com o mote Estética e Subjetivação. O tema era intrincado, complexo e ao mesmo tempo, muito simples, o “suicídio”, a partir da obra de dois poetas de origens distintas: uma anglo-saxônica, Silvia Plath, e um latino, Mário de Sá Carneiro. Como debatedores foram convidados Ana Cecília Carvalho, da UFMG, e Lino Machado, da UFES. A moderação ficou a cargo de Ítalo Campos. O suicídio foi sempre uma atitude humana controversa, alvo de rejeições as mais diversas, mas também de admiração. Visto, ora como algo corajoso e heróico, ora como covardia e fraqueza. Abrir mão voluntariamente da própria vida será sempre um gesto contraditório ao qual não conseguimos compreender nem explicar satisfatoriamente, seja por meio do instrumental da psicanálise, seja através dos impulsos auto-destrutivos presentes muitas vezes nas pessoas sensíveis e criativas que catalisam a dor do mundo. Nas pessoas comuns, ele desperta a compaixão e a recusa em aceita-lo. Na literatura, esse ato adquire geralmente traços gloriosos e atraentes. Inúmeros poetas se suicidaram ao longo da história, entre eles, os dois poetas escolhidos pelos debatedores. Basta lembrarmo-nos dos “Sofrimentos do Jovem Werther”, de Goethe, obra que tive o prazer de traduzir para a Editora Liberdade, que provocou na Europa no final de século XVIII e início do XIX uma onda de suicídios sem igual. Werther, o personagem do romance, se suicidou pela impossibilidade de realizar plenamente seus desejos amorosos. Na mesma época, Schopenhauer escrevia que a vida é dor, e que querer significa desejar, e o desejo implica a ausência daquilo que se deseja. Desejo seria, portanto, privação, deficiência, indigência e, por conseguinte, dor, e o prazer a cessação da dor, sendo desse modo negativo e transitório. Para o filósofo alemão, o homem tem como objetivo libertar-se da realidade da dor, mas o suicídio não serve a esse objetivo, pois o suicida almeja a vida, ele destrói a vida, mas não a vontade de viver que não fica diminuída com o seu gesto. Por outro lado afirmava que as artes são libertadoras, pois o prazer que oferecem corresponde à cessação da dor de existir, embora temporária e parcial. Borges, por sua vez, afirmou a propósito de Kafka que “cada escritor cria a seus próprios precursores, pois seu trabalho modifica nossa concepção do passado, como há de modificar o futuro.” Porque se Kafka nada tivesse escrito não perceberíamos seus traços nos antepassados. Nesse sentido, poderíamos pensar que o escritor ao se suicidar, escreve com ele a sua última obra, pois tudo o que produziu até então será reinterpretado à luz desse ato. Tal como tendemos a considerar o poeta cego como um sábio, o poeta suicida nos parece um gênio incompreendido e, portanto, o sentido de tudo o que deixou ganha em profundidade e alcance, transcendendo em muito o seu curto período de existência. Empédocles se lançou no Etna para se reintegrar à natureza, o poeta deixa de viver, talvez, para ampliar o significado e a importância da literatura na vida humana o que contraditoriamente o poeta João Cabral de Melo Neto chamou de “voo do pássaro aprisionado”. Erlon José Paschoal
Escrito por Erlon José Paschoal às 17h51
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O FUNK E A CRIMINALIDADE Recentemente fui solicitado a dar entrevistas a três rádios locais acerca do funk e de seus possíveis estímulos à criminalidade. Houve uma participação expressiva dos ouvintes e o tema despertou o interesse de pessoas envolvidas com a questão. Ponderei que o funk, tal como rap e o hip-hop, são manifestações legítimas de grupos sociais geralmente mantidos à margem da sociedade. Por não serem formas artísticas aceitas pelos cânones estabelecidos pelas classes dominantes são quase sempre consideradas com desconfiança e rejeitadas por força dos preconceitos que fundamentam o apartheid social entre ricos e pobres, em uma sociedade tão desigual como a brasileira. As letras das formas musicais debatidas nos citados programas, repletas de erotismo e de situações extremas regidas pela violência, apenas retratam o cotidiano de uma parte significativa de nossa população. Os roubos, os assassinatos, as drogas e as necessidades sexuais desregradas não foram inventadas por esse gênero musical e, muito menos, lhe cabe a culpa de tais anomalias sociais. Na realidade ele é a sua maior vítima. Criminalizar as vítimas, além de preconceito reflete uma profunda falta de compreensão dos problemas sociais graves que afetam e estruturam a sociedade brasileira. Ao contrário do que pressupunham muitas das perguntas, as letras do funk não são a causa, mas o reflexo de uma sociedade violenta. O que de fato estimula a criminalidade são, por exemplo, inúmeras atitudes de nosso congresso nacional e do judiciário protegendo bandidos de colarinho branco; é a miséria, a falta de trabalho e de moradias decentes; as trapaças no mundo financeiro; a participação constante de empresários na rede do crime organizado que vai do contrabando de armas e drogas ao roubo de cargas; os vários desvios impunes de verbas públicas, a morosidade infame na execução da reforma agrária e a desintegração dos valores morais e da família. O estímulo indiscriminado à pornografia pode ser visto, aliás, nas TVs abertas nos domingos à tarde, nas quais acompanhamos também atitudes nefastas e sem quaisquer resquícios éticos proclamadas pelos reality shows. Derrotar o outro a qualquer custo é um dos valores mais difundidos por nossos meios de comunicação. Em alguns países europeus não é muito diferente. Na França, o tecktonic, ritmo criado por africanos na periferia de Paris, com suas danças sensuais e sua suposta apologia ao crime, deixam a classe média francesa de cabelo em pé. Um de seus clipes no youtube foi acessado por 11 milhões de pessoas mostrando a força de seu alcance. Na Alemanha, a rapper Lady Bitch Ray, de origem turca, abusa dos palavrões e obscenidades e chegou a presentear um apresentador de um programa de TV, para o qual foi convidada, com um frasco de secreção vaginal, para horror dos moralistas de plantão. Vivemos novos tempos e devemos estar preparados para formas desiguais de manifestação artísticas, com origens e motivações múltiplas. A diversidade cultural impõe assim a sua existência atropelando preconceitos e reações hipócritas. Erlon José Paschoal
Escrito por Erlon José Paschoal às 17h51
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O fogo da vingança Tivemos há pouco em Vitória uma semana repleta de eventos e espetáculos artísticos de boa qualidade; entre eles, o Festival Nacional de Teatro, o Seis e Meia com Negra Li e Idalina Dornellas, a V Mostra Produção Independente Cinema em Negro Negro e a exibição de filmes de ótimo nível nos cinemas da cidade. Em meio a espetáculos teatrais de boa qualidade, vídeos representativos da cultura afro-brasileira com uma bela e merecida homenagem a Markus Konká e a abertura de uma exposição na Galeria Homero Massena envolvendo 14 artistas, encontrei tempo para assistir a "Bastardos Inglórios", de Quentin Tarantino.
Mais uma vez o diretor americano surpreende o público e reinventa a História num filme no qual todos os personagens são canalhas, a maioria por convicção, alguns pelas circunstâncias. Sarcasticamente, ele brinca com inúmeros clichês do cinema americano beirando à caricatura ao retratar pseudo-heróis invencíveis empenhados em exterminar os exterminadores.
Um soldado alemão doce e gentil tornou-se uma celebridade por ter assassinado 300 pessoas. Ele é o homenageado na noite das longas chamas na qual a ficção subverte a História e forja a vingança. O cinema foi o local escolhido para a sua realização num espetáculo fantasmagórico e infernal.
Presentes no local, Hitler e seus asseclas, acompanhados de todo o seu séquito de aristocratas da infâmia em uniformes de gala ou em requintados ternos da moda, o que suscita o sorriso ambíguo do espectador; e nos divertiríamos muito mais se não soubéssemos o que foi maquinado e executado por aquelas grotescas figuras esbravejantes. Mas os bastardos inglórios não estão interessados em questões políticas e sociais; eles querem apenas cumprir o seu dever de matar e de escalpelar os nazistas fardados; os que são deixados vivos recebem na testa cunhado à faca a insígnia vil do partido que levou a Alemanha e o mundo ao caos e à degradação.
Em algumas das cenas mais exuberantes do filme, o caçador de judeus e o oficial da Gestapo ostentam com mestria a falsa dignidade, o cinismo vaidoso e o demonismo barato numa atuação perfeita dos atores. São diálogos primorosos e, ao mesmo tempo, assustadores de tão torpes e abjetos.
O filme mostra enfim o comportamento daqueles indivíduos que em qualquer época e em qualquer regime político "cumprem o seu dever", fazendo da adulação, da crueldade e da desfaçatez uma prática corriqueira e legítima. Acresce-se a isso a fascinação dos nazistas pela arte da representação no que ela tem de mais superficial: as poses, os gestos grandiloquentes, o fingimento convincente.
Sem dúvida, a riqueza maior deste filme está em suas leituras múltiplas: da referência à vida real de personagens emblemáticos do século XX, à ambição doentia e destrutiva e à vingança cega e implacável.
Num filme de Tarantino não podia faltar a cena em que todos apontam a arma uns para os outros tornando impossível a fuga e defrontando o espectador com as situações sem saída nas quais a vida fica por um fio. Todos são bastardos, todos são inglórios. Não há vencedores. Perdeu enfim a humanidade.
Erlon José Paschoal
Escrito por Erlon José Paschoal às 18h43
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Um casal (quase) feliz Dias desses fui comer um pastel e tomar a famosa batidinha no Bar do Ceará, um dos botecos mais premiados e concorridos de nossa cidade. Sentei-me e fiz o pedido descontraído e, ao mesmo tempo, um pouco cansado depois de um dia intenso de trabalho. Ao meu lado três mulheres conversavam animadamente. Sempre achei interessante ouvir conversar alheias em público. Quase sempre advém daí ótimas cenas que aproveito em peças de teatro ou em textos diversos buscando refletir sobre o comportamento humano e suas contradições. Uma delas contava uma história repleta de detalhes tendo como protagonistas duas colegas de trabalho que se apaixonaram e resolver assumir publicamente essa relação. Apresentaram-se às respectivas famílias e aos amigos como duas pessoas enamoradas. Por causa disso, enfrentaram situações difíceis e inusitadas, mesmo numa época em que se aceita oficialmente o casamento entre pessoas do mesmo sexo e as diferenças entre gêneros ou opções sexuais tenham sido já introjetadas pelo conjunto da sociedade como algo normal e corriqueiro. De qualquer modo os preconceitos continuam ativos em muitas esferas da vida social causando transtorno a quem se opõe a eles de alguma maneira. O casal mencionado manteve uma relação feliz durante alguns anos. Compartilharam inúmeros momentos significativos na vida de ambas. Faziam juntas tudo o que era possível. Uma viagem pelo Nordeste foi o ponto alto dessa paixão e dessa afinidade profunda e duradoura. Depois disso começaram as constantes brigas provocadas pelo ciúme doentio e pelos traços maníaco-obsessivos de uma delas. Transtornada, esta chegava a telefonar incontáveis vezes por dia tentando saber onde e com quem a outra se encontrava. Foram momentos tensos e repletos de acusações mútuas. Até que por fim ocorreu a ruptura acarretando o seu descontrole emocional e a obsessão pela vingança. Lembrei-me de um desfecho trágico, noticiado pela imprensa há algumas semanas, envolvendo duas professoras do CEFETES que mantinham uma relação amorosa. O que aparentava ser um grande amor transformou-se então num pesadelo chocando as amigas mais próximas. A que estava sentada de frente para mim demonstrou com o rosto crispado a sua indignação e perplexidade com tanta destemperança. Afirmou categórica que considerava um absurdo ver aquele caso de amor terminar em caso de polícia. Degustei mais um pastel e, bebendo em silêncio um gole da cerveja gelada, dei razão a ela. A poetisa grega Safo, a primeira mulher na literatura a assumir o amor e o erotismo entre iguais, dizia que o amor é devoção, mas nos alertou também sobre a ferida do ciúme que corrói a alma e a povoa de dor. A simples presença da mulher amada estimulava nela uma perturbação prazerosa que todos conhecemos: “Se te miro apenas um instante/ me falta a voz./ A língua gela, um fogo tênue/ desliza sob a pele.” Paguei a conta e levantei-me sem ouvir o final da história. Sei muito bem que o amor e o ódio muitas vezes se confundem causando muitos sofrimentos à espécie humana. Ao passar por elas balbuciei: que o amor oriente a todos e a todas.
Erlon José Paschoal
Escrito por Erlon José Paschoal às 15h44
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Amizade sincera Numa época em que convivemos diariamente, através das redes sociais virtuais, com conceitos como amigo e comunidade, creio que seria muito pertinente uma reflexão sobre a amizade e os sentimentos e valores que agrupam as pessoas. Na internet podemos formar incontáveis redes de amigos trocando as informações mais diversas, compartilhando aspectos da vida íntima e socializando idéias. É uma ferramenta eficiente e até há pouco inimaginável na vida social, que possibilita a aproximação constante com amigos distantes e o contato com novas pessoas, cujos interesses comuns podem favorecer boas “conversas” por meio de textos sempre circunscritos a um pequeno número de caracteres. Seria talvez a amizade virtual uma forma de comunicação com um forte potencial de solidariedade, uma vez que torna quase familiares pessoas de círculos e mundos diferentes? A amizade é uma mescla de familiaridade, afeição e compromisso ético. Por isso os amigos são tão importantes, afinal representam as nossas escolhas, as nossas afinidades eletivas elaboradas ao longo da vida. Nesse sentido, a amizade virtual pode ser sincera e intensa, do mesmo modo que a amizade na vida real pode se tornar com o tempo algo superficial. Tudo depende de como utilizamos as novas tecnologias: se a serviço do aprofundamento das relações humanas ou como uma forma vazia de ocupar o tempo e construir falsas ilusões. De qualquer modo é fundamental a presença do gesto e do olhar, do corpo e de suas emoções. Algo que será sempre imprescindível. Guy Debord, em “A Sociedade do Espetáculo”, já nos alertou a respeito enfatizando que “a vida nas sociedades, nas quais reinam as modernas condições de produção, apresenta-se como um imenso conjunto de espetáculos". Para muitos pensadores o principal ingrediente da amizade é a conversação. A personagem do conto “Uma Amizade Sincera” de Clarice Lispector confessa que “depois da conversa, sentíamo-nos tão contentes como se nos tivéssemos presenteado a nós mesmos.” Na conversação entre amigos cabem as brincadeiras, os assuntos pueris e os mais íntimos e sérios. Em sua obra “Sobre a Amizade” o filósofo latino Cícero pergunta: “Há coisa mais doce do que poder falar com alguém como falamos a nós mesmos? De que valeria toda a felicidade do mundo se não tivéssemos quem com ela se alegrasse tanto quanto nós?” Em uma conhecida fábula indiana, Budha responde a um discípulo que a amizade nada mais é que uma bengala forte e segura, um apoio e um auxílio para se atravessar o Rio da Vida sem receio de escorregar. E termina esclarecendo que a amizade, como a bengala, deverá ser bem cuidada, para que nunca se deteriore e não apodreça, pois uma amizade é algo vivo, que necessita de cuidados para não morrer. As novas tecnologias abrem novos caminhos e novas possibilidades de comunicação e nos confrontam, ao mesmo tempo, com o imenso desafio de nos tornarmos mais humanos. Quem sabe, fortalecendo ainda mais os laços afetivos que nos unem a outros seres humanos. Erlon José Paschoal
Escrito por Erlon José Paschoal às 10h37
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A função social do teatro No último dia 18 fui convidado para dar uma palestra na UFES, no auditório do IC-4, com o tema “Tragédia e Comédia e o Teatro Contemporâneo”. Foi um debate saudável e repleto de reflexões atuais e pertinentes. Parti do princípio de que tragédia e comédia em sua origem são duas perspectivas estéticas de se confrontar com a vida em seu sentido ético, político, social e individual. Naturalmente em mais de dois milênios de existência, esses dois conceitos passaram por inúmeras transformações e adequações sempre relacionados com cada período histórico e com suas respectivas contradições. Abordei-os a partir da função social que desempenharam ao longo da história, uma vez que o teatro é eminentemente um evento artístico social. Nesse aspecto poderíamos afirmar que, ao contrário das outras artes, pelo menos até o advento dos museus, o teatro foi a única atividade artística com um espaço arquitetônico próprio, construído com o objetivo de receber um grande número de pessoas para uma celebração conjunta. A tragédia surge, juntamente com a comédia, nas festas dionisíacas, sendo que a primeira pretendia expor a essência humana e a sua relação com os sentimentos profundos de amor, ódio, medo, traição, etc., enquanto a comédia tratava do comportamento cotidiano dos homens. O filósofo Aristóteles, em sua Poética, esclarece que a tragédia tem como finalidade a purgação de emoções como a compaixão e o terror. Resumindo poderíamos afirmar que a tragédia é a expressão desesperada do homem orgulhoso, que luta contra todas as adversidades e contra os deuses, mas não consegue evitar o infortúnio. É preciso destacar que na Grécia antiga o teatro possuía uma função social de proporções só equivalente à arte de massa nos dias de hoje. Na segunda metade do séc. XIX surge o conceito de “crítica social” no contexto das teorias socialistas. O teatro passa a ser considerado sob novas perspectivas, dando relevo à crítica das realidades econômica, política e social. Um efeito procurado hoje pelas produções teatrais é causar um certo desconforto no público, um distanciamento crítico das referências à realidade presentes na representação. Há ainda uma outra via através da qual este mesmo efeito é alcançado: espetáculos que se utilizam da intersecção de diversas formas de expressão artística propondo um diálogo entre formas de expressão diversas. Isso vale também para a mescla de gêneros no teatro moderno, no qual o trágico se mistura com o cômico e com o grotesco, o cômico com o dramático, o dramático com o farsesco e assim por diante, sem fronteiras definidas. E hoje, em nosso mundo globalizado e interconectado, repleto de barbáries e genocídios, onde o trágico é sempre contaminado pelo grotesco e o cômico pelo riso fácil, como são percebidas essas duas perspectivas de se confrontar com a vida? Ou, em outras palavras, com as novas mídias e as convergências virtuais, que função o teatro ocupa na sociedade atual?
Erlon José Paschoal
Escrito por Erlon José Paschoal às 10h36
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Um salto gigantesco No último dia 20 de julho comemoraram-se os quarenta anos da chegada do homem à Lua. Afora os inúmeros avanços tecnológicos oriundos dessa aventura impulsionada pela disputa acirrada entre as duas superpotências da época, que influenciaram o cotidiano das sociedades mais desenvolvidas, houve uma mudança crucial na percepção humana em relação à vida e ao universo. A partir de então passamos a olhar a Terra à distância e pudemos contemplar a imensidão do Cosmos e constatar a nossa insignificância em meio a esse conjunto inacessível e infinito. A Terra começou a ser vista quase como uma nave espacial, ou como cantou Caetano Veloso: “Que a força mãe dê coragem/ Pra gente te dar carinho/ Durante toda a viagem/ Que realizas no Nada/ Através do qual carregas/ O nome da tua carne”. Somos a partir daí a única espécie desse planeta que “vê” a Terra de fora. Um teórico americano, Frank White, cunhou a consequência desse salto gigantesco para a humanidade de “efeito panorâmico” (overwiew effect). Não se trata somente de uma mudança ocasionada por imagens que nos apropriamos e introjetamos, mas de uma transformação profunda na consciência humana em relação a si mesma, ao sentido da vida e aos mistérios da existência. O autor se utiliza de uma metáfora curiosa apoiando-se na evolução da humanidade aceita pelos cientistas: um peixe consegue sair do mar e vê-lo à distância. Ele é capaz de vislumbrar o oceano e imagina-lo parte de algo infinitamente maior. Todos os referenciais válidos até então se transformam, desaparecendo os limites e as fronteiras. Novamente Caetano: “Quando eu me encontrava preso/ Na cela de uma cadeia/ Foi que vi pela primeira vez/ As tais fotografias/ Em que apareces inteira”. A consciência vai assimilando gradualmente novas concepções de espaço e tempo que apontam para a reestruturação da vida na Terra. Bertrand Russel afirmou no início do século XX que o universo todo é simplesmente o resultado de agrupamentos acidentais de átomos. A existência ficaria desse modo desprovida de qualquer significado real. Seria um encontro com o Nada, que pode gerar sensações e posturas antagônicas: o desespero, a perplexidade e a alienação ou a condução sábia da vida e a paciência, a reverência à totalidade e a consciência ética. Muitos filósofos e pensadores já haviam expressado idéias semelhantes antes das constatações científicas e das divulgação das imagens da Terra e do Cosmos com as quais convivemos hoje, como algo que compõe o nosso horizonte de experiências possíveis. Podemos deduzir daí que vivemos um período de transição, sendo confrontados a todo momento com perspectivas excludentes: a extinção de todas as espécies ou a vida harmoniosa em um planeta equilibrado, a barbárie extrema ou o mais alto grau de civilização, a tolerância e o respeito à diversidade ou o extermínio e o ódio destrutivo. Para muitos vivemos hoje uma época similar à Idade Média. Nesse caso muito provavelmente vivenciaremos um renascimento ou assistiremos ao caos e à destruição. A escolha é de cada um. Erlon José Paschoal
Escrito por Erlon José Paschoal às 10h34
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A mente é um caos de deleite
Desde sempre, a espécie humana tem se defrontado com algumas questões fundamentais: quem somos e de onde viemos? E sobretudo: se houve um começo, haverá um fim?
A exposição Darwin - Descubra o Homem e a Teoria Revolucionária que mudou o Mundo, aberta à visitação no Palácio Anchieta no último dia 3 de agosto, tem como propósito principal levar o observador a refletir sobre tais indagações. Durante muito tempo, as respostas proporcionadas pelas religiões e pelas diversas mitologias satisfizeram a necessidade inata da espécie humana de conhecer a si mesma. O enigma da origem da vida sempre povoou o nosso imaginário e ocupou os nossos pensamentos.
Chama a nossa atenção o fascínio de Darwin pela natureza, pelo esplendor da biodiversidade e pela pluralidade das espécies. Somos cativados pelo seu olhar perscrutador e por seu deleite em ver no aparente caos da natureza um estímulo para o exercício do raciocínio científico e pelo desejo de vislumbrar a unidade em meio às múltiplas diferenças.
O conceito de evolução, como mola propulsora do universo, foi aos poucos se instaurando como uma verdade aceita por todos. Evoluir é o nosso destino, é a força da natureza da qual somos feitos. Acreditamos que é impossível algo surgir do Nada. Mais difícil ainda é crer que algo sempre existiu. Alguns filósofos gregos eram adeptos da existência eterna do mundo, mas a ideia de eternidade se contrapõe à finitude de todas as coisas, inclusive de nossa própria existência, daí a dificuldade em aceitá-la.
Por outro lado, se algo surgiu de algo, qual foi o algo primeiro, o que deu origem a tudo? Para a Gênesis bíblica, no princípio era o Verbo, ou seja, foram as palavras pronunciadas por Deus que criaram tudo o que há no universo. Ao mesmo tempo, João (12,24) proclama: "Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só, mas se morrer produzirá muito fruto."
A ideia central do evolucionismo é a transformação, a mutação incessante de tudo o que habita a Terra e o universo. Embora nossas instituições sejam concebidas como algo estático e permanente alimentando, por conseguinte, nossa tendência ao conservadorismo, todos sabemos no íntimo que é impossível "banhar-se duas vezes no mesmo rio".
Nossas crenças, nossa visão de mundo e nossa consciência da própria existência são constantemente influenciadas por essas forças contrárias: sabemos que tudo muda, mas queremos que tudo permaneça como está. Desse modo, construímos muitas vezes o nosso cotidiano e exploramos a natureza como se tudo fosse durar para sempre.
Nesse início do século XXI, a humanidade começa a introjetar uma nova maneira de se relacionar com a natureza, e se vê obrigada a reorganizar a ordem mundial, sob a ameaça de não mais se deleitar com o caos aparente, mas de ser destruída por ele. Fritjof Capra afirma que "a consciência ecológica, em seu nível mais profundo, significa o reconhecimento intuitivo da unicidade de toda a vida, da interdependência de suas múltiplas manifestações e de seus ciclos de mudança e transformação."
Parabéns aos organizadores da exposição.
Erlon José Paschoal
Escrito por Erlon José Paschoal às 13h43
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MAIS LUZ! Três anos bem vividos em Brasília me fizeram perder alguns espetáculos significativos em Vitória. Um deles foi “Os cegos ou o sábio de Flandres” com texto e direção de Margareth Galvão. A fonte de inspiração da autora foi a obra de Pieter Bruegel, um pintor flamengo do século XVI e muito influenciado por Bosch, que além de visionário ao retratar os destinos e contradições humanas de maneira irônica e grotesca, antecipou movimentos artísticos que só foram ocorrer no início do século XX. Dentre os seus inúmeros quadros, que impressionam e até mesmo surpreendem o observador contemporâneo – A Torre de Babel, O Triunfo da Morte, Paisagem com a Queda de Ícaro, A Queda dos Anjos Rebeldes e o instigante Terra de Cocaigne (um mito medieval referente a uma terra de abundância, onde predomina a felicidade, a liberdade sexual e a comida farta) -, a autora escolheu “A Parábola dos Cegos”, de 1568, baseado em um conhecido dito bíblico: “Quando um cego guia outro cego, ambos caem no abismo” Em um famoso soneto, Baudelaire assim evocou o quadro de Bruegel: Contempla-os, ó minha alma; eles são pavorosos! Iguais aos manequins, grotescos, singulares, Sonâmbulos, talvez, terríveis se os olhares, Lançando não sei de onde os globos tenebrosos. Atriz de renome no teatro e no cinema e formada em artes visuais pela UFES, a autora dá vida a esses seres crédulos e tolos, arrogantes o suficiente para acreditarem que sozinhos chegarão a algum lugar. O lugar que almejam a princípio é o paraíso terrestre de Cocaigne, a fim de realizar os seus desejos e vícios. Guiados por Lamprido, uma espécie de alter-ego do pintor e rei de um olho só, os três cegos ignoram as conseqüências nefastas de suas atitudes mesquinhas e egoístas. Ostentando a presunção típica de quem só enxerga a si mesmo resolvem então ir a Roma pedir perdão ao Papa, e esperam dele um milagre: a visão. O guia ri dos três e oferece-lhe alguns florins para retratá-los deixando-os registrados para toda a eternidade, quase como uma caricatura do des(a)tino humano, todos em fila caminhando altivos e orgulhosos para a catástrofe e o fundo do poço. Inevitável lembrar-se do “Ensaio sobre a Cegueira” de Saramago, no qual a aparente segurança reinante vai sendo gradativamente destruída pela indiferença e incapacidade de se solidarizar e se identificar com o outro, atingindo proporções apocalípticas. O texto de Margareth Galvão fala da ignorância das trevas, da ambição e da presunção desmedidas, mas aponta para o seu contrário: a sabedoria e o bom senso. Ao final, o trio de aleijões caminha direto para a lama fétida desaparecendo na areia movediça e o pintor/guia anuncia que rezará pela felicidade deles. A cegueira espiritual, que beira a insanidade, leva a um desfecho patético, quase risível. Depois disso, impossível não refletirmos sobre a nossa própria conduta e a de nossos contemporâneos. Uma obra de evidente qualidade dramatúrgica, inteligente e sarcástica, algo que o público brasileiro merece. Pena que não vi a encenação. Erlon José Paschoal
Escrito por Erlon José Paschoal às 14h17
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DANÇANDO O TEATRO
O nome de Pina Bausch – falecida no último dia 30 de junho com 68 anos – é imediatamente associado a Dança-teatro (Tanztheater). Embora não tenha sido a primeira coreógrafa a utilizar essa expressão, foi ela quem deu uma dimensão estética e conceitual a essa nova modalidade de expressão artística, universalizando-a. Com o seu grupo Wuppertal Tanztheater, sediado em Wuppertal na Alemanha, Pina Bausch primeiramente desafiou e encantou os alemães, utilizando em seus espetáculos elementos marcadamente teatrais, sem deixar de destacar as técnicas clássicas do balé, só que de maneira crítica, para em seguida tornar-se uma das maiores referências em dança do mundo ocidental. Sua influência no futuro da dança foi universal e quase única. Combinando e fazendo interagir cenários e figurinos com personagens, pantomima, gestos cotidianos, dança, canto e diálogos, suas obras sensibilizavam o público pela leveza, pelo conteúdo humano e pelo estímulo à reflexão, na melhor tradição de Brecht. Não foi por acaso que encenou em 1976 uma adaptação de Os Sete Pecados Capitais dos Pequenos Burgueses, ópera de Bertolt Brecht com música de Kurt Weil, um de seus maiores e mais longos sucessos. Foi o primeiro espetáculo no qual fez uso dessa nova linguagem, ainda estranha para a dança, e que marcou a sua carreira como coreógrafa e a força interpretativa de seu grupo. Reapresentou-o mais de trinta anos depois, de 2007 a 2009, revista e readaptada e, segundo os críticos, sem que tivesse perdido nada de sua intensidade dramática original. Tive o prazer de assistir a essa versão do século XXI e me deixei também encantar pela simplicidade que sintetiza o essencial, pela riqueza coreográfica sem nenhum gesto em vão, pela expressão significativa dos rostos, uma das marcas do teatro, pela capacidade gestual dos bailarinos-atores, amalgamando música, texto e movimento de maneira criativa e crítica. Sobre essa encenação, Pina Bausch afirmou: “Não me interessa como as pessoas se movimentam, me interessa o que as movimenta”. Seu método de trabalho consistia, sobretudo, em provocar os bailarinos-atores para que dessem respostas físicas e verbais a indagações fundamentais da vida humana. A partir daí se desenvolviam as cenas deixando vir à tona a magia do movimento e a dramaticidade do teatro. Certa vez disse: “Minhas obras não se desenvolvem do começo para o fim, mas de dentro para fora.” Pela ousadia, pela inventividade e pela tentativa de fazer da dança um espaço de reflexões sobre questões humanas profundas, o legado de Pina Bausch para a evolução das artes cênicas é incomensurável e servirá sempre de fonte para pesquisadores e encenadores que não se contentam apenas com o trivial e o supérfluo. O corpo guarda segredos e saberes que precisam ser revelados. Era o que almejavam as suas coreografias. Ou nas palavras dela: “Para mim, o mais importante é a vida. O que importa é compartilharmos nossos sentimentos, nossos medos e nossos desejos. Não tanto no sentido privado, individual, mas no sentido coletivo. Se cada um for ao fundo de si mesmo, perceberá que há uma linguagem comum a todos, que todos falamos e através da qual nos entendemos e nos identificamos.” Assim seja. Erlon José Paschoal
Escrito por Erlon José Paschoal às 09h42
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A VINGANÇA CEGA No final de outubro, o escritor albanês Ismail Kadaré receberá o Prêmio Príncipe de Astúrias 2009 pelo valor de sua obra e por seu engajamento a favor da liberdade de expressão. Autor de várias obras de inegável qualidade literária, uma delas toca especialmente a sensibilidade dos brasileiros pela adaptação feita para o cinema pelo diretor Walter Salles: Abril Despedaçado, um dos ótimos exemplos da safra de bons filmes do cinema brasileiro dos últimos dez anos. A notícia do Prêmio me levou a reler esse belo romance. Enrijecido pelo frio, um rapaz de 26 anos, aguarda nas montanhas nevadas do norte da Albânia, com o fuzil na mão a chegada do assassino do seu irmão a quem ele é obrigado a vingar. Tendo apenas as romãs e a neve naquele mês de março como testemunhas caladas, ele percebe a aproximação da próxima vítima, faz a mira, grita o nome dele - de acordo com as regras da vendeta - e atira. O outro dá meio passo à frente e cai. O rapaz de aproxima do defunto, vira-o de frente, como manda o costume. Assim começa esse romance de Ismail Kadaré. Ele teria agora 30 dias de trégua, até meados de abril, concedidos pela família do assassinado, mas depois disso "a morte o espreitaria em toda a parte" e ele teria de viver como um morcego, fugindo do sol e se ocultando na escuridão. Ao fim desse prazo, seria a vez dele ser tocaiado e morto e virado de frente com o fuzil na testa, tal como determinava o Kanun… O que Gjorg faria nesses trinta dias que lhe restavam de vida? Ao final, a cena inicial se repete, só que agora a vítima é Gjorg, pelo mesmo motivo indefinido: fazer girar a roda da vingança cega. Para Adorno, por exemplo, o fascismo, o estalinismo e o american way of life eram variantes de um mesmo processo, redundando todos na anulação do sujeito para o qual não existe mais a liberdade, pois a impossibilidade de diferenciar-se dos outros o reduz à condição de massa. O Kanun pode ser a engrenagem que determina a vida dos personagens kafkianos deslocados por não compreenderem as prescrições e as leis que regulam as suas ações. Trata-se de uma história trágica ou grotesca? Trágica, sem dúvida, mas não no sentido grego, pois lhe falta a dimensão do sublime, na qual o indivíduo livre e autoconfiante desafia os deuses e a sua revolta contra o Destino aparece carregada de arrogância, de orgulho exagerado, o que o leva à ruína e à morte. O clima opressivo onde todos os gestos e palavras parecem já terem sido planejados e previstos por um código que determina a vida do começo ao fim, em seus mais ínfimos detalhes, não deixa espaço para as atitudes heróicas. Seria talvez mais uma metáfora do totalitarismo, no qual o sujeito apenas obedece, e é reduzido a uma massa indiferenciada. Para Ismail Kadaré, no período ditatorial comunista na Albânia - assim como em qualquer ditadura fascista ou similar -, o trágico é sempre contaminado pelo grotesco. O conteúdo trágico, presente neste belo romance da literatura ocidental, aproxima-se mais de Kafka, Dino Bussati ou Becket do que de Ésquilo ou Sófocles, já que nessa nossa época de barbárie, de corpos despedaçados voando no Afeganistão, no Iraque, na Palestina, em Terra Vermelha ou na baixada fluminense, a morte se tornou algo corriqueiro e impessoal. Ao tratar da morte prescrita, a obra nos leva a pensar no sentido da vida, nas razões de nossa existência e de nossas atitudes muitas vezes mesquinhas e cruéis, e estimula o leitor a pensar séria e ludicamente nos minutos, horas, dias, meses ou anos que lhe restam ainda de existência nesse planeta. ERLON JOSÉ PASCHOAL
Escrito por Erlon José Paschoal às 09h40
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INCENTIVO OU PRIVILÉGIO? No último dia 19 de junho, o Ministro da Cultura, Sr. Juca Ferreira, esteve em Vitória e fez na Assembléia Legislativa do Estado do Espírito Santo uma palestra incisiva e apaixonada expondo as distorções e os privilégios predominantes no que se refere aos mecanismos de aprovação e de captação dos recursos oriundos da Lei Rouanet. Condenou com veemência a centralização e a desigualdade na distribuição dos benefícios concedidos pela Lei nacional de incentivo. Destacou que as leis de incentivo foram criadas em um período de forte influência neoliberal no qual se impunha a hegemonia das regras de mercado em detrimento da presença do Estado e, consequentemente, das políticas públicas na utilização dos recursos resultantes da renúncia fiscal que, em tese, beneficiaria igualmente produtores, artistas, agentes culturais e empresas privadas. Depois de quase duas décadas, os números e as pesquisas apresentadas pelo Ministro mostraram uma realidade bem adversa e, segundo ele, ”escandalosa”. Vitória passa por um processo semelhante de busca de aperfeiçoamento da lei municipal de incentivo, a Lei Rubem Braga. Do mesmo modo busca-se corrigir as “distorções, os vícios e os privilégios” existentes. É consenso que uma lei de incentivo não pode jamais substituir as políticas públicas na área da cultura, pois isso ampliaria ainda mais a concentração de recursos e comprometeria o desenvolvimento cultural da cidade. De imediato precisamos de informações detalhadas acerca do funcionamento de nossa Lei de incentivo, de um estudo sobre a aplicação dos seus recursos nos últimos anos e suas repercussões na vida cultural da cidade, no incentivo à formação de grupos estáveis e à sustentabilidade dos beneficiados. Nesse caso muitas questões viriam à tona, já que trata de incentivo e não de patrocínio. Por exemplo: qual foi o número de artistas e empresas culturais beneficiadas, direta ou indiretamente, até hoje pela LRB? Como se deu o crescimento e a consolidação dessas empresas diante do mercado? Quantos livros, discos, DVDs etc são realizados anualmente com a LRB? Qual o impacto de sua distribuição e acesso? Esses produtos culturais chegaram ao público alvo? Quantas empresas privadas possuem políticas culturais e departamentos específicos para arbitrar sobre o investimento incentivado? Quanto o interesse público está sendo pautado dentro dessas empresas? Qual o perfil dos 20 maiores beneficiários da Lei até hoje? Quem são e o que fazem? Qual foi o percentual de verba captada por eles nos últimos 5 anos? Quanto se investiu em cada área e qual foi a repercussão desses investimentos no conjunto da sociedade? São informações imprescindíveis que servirão de base para os futuros aperfeiçoamentos tão necessários. Sabemos que em geral todos são a favor da eliminação dos privilégios, “desde que seja os dos outros”. Portanto, como bem afirmou o Ministro, não é um processo fácil. É um caminho árduo e repleto de embates, conflitos e contradições. Mas como vivemos um importante momento em nosso Estado de democratização e de transparência na esfera pública, as condições são plenamente favoráveis para ampliarmos o debate acerca da importância da atividade cultural e de suas formas de financiamento, visando ao desenvolvimento humano e social mais igualitário. Que o discurso do Ministro nos sirva de estímulo e de referência para os novos rumos e significados a serem atribuídos às leis de incentivo dentro do conjunto de políticas culturais implementadas pelo poder público. Erlon José Paschoal
Escrito por Erlon José Paschoal às 09h42
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A boa alma má O espetáculo A Alma Boa de Setsuan, de Bertolt Brecht, que estreou em São Paulo no ano passado, continua fazendo rir e refletir plateias de várias cidades do país. Tendo nos papéis principais Denise Fraga e Ari França, e uma direção segura de Marco Antonio Braz, essa montagem conta com um elenco afinado e muito bem preparado para fazer de um tema tão espinhoso algo engraçado, sem minimizar a sua dimensão filosófica e social. Três deuses – nessa versão condensados em um único ator, Ari França – descem à Terra, a fim de encontrar uma alma boa e assim salvar o mundo. Após uma longa procura encontram a prostituta Chen Te, na cidade de Setsuan. Certos do sucesso de sua empreitada pagam-lhe então pela hospedagem, uma quantia suficiente para que ela abra um negócio e mude de vida. Aí começa a transformação brusca de seu caráter. Traveste-se de homem, Chui Ta, assume outra personalidade e torna-se dura, insensível, mesquinha e cruel. Trata com rigor os seus empregados e age de maneira torpe para aumentar os seus ganhos. Brecht escreveu esta parábola em 1941. Acreditava que o homem era bom por natureza e que a maldade demandava um grande esforço. As relações capitalistas, no entanto, exigem que o homem aja de modo vil e egoísta. Instaura-se então um impasse moral. Passados quase 70 anos, o texto continua atual e confronta o homem moderno com questões éticas fundamentais para se viver em sociedade. A confiança, a generosidade e a solidariedade seriam para ele a base para a construção de uma nova sociedade. Haveria tempo ainda? O que torna afinal uma pessoa aparentemente doce e inteligente uma mau caráter implacável, assumindo atitudes calhordas e abjetas? Para Brecht seria a luta insana pelo dinheiro, acionada pela roda do capitalismo, que deteriora as relações e os valores humanos, levando muitas vezes as pessoas a propagarem certos princípios e a agirem de modo contrário. Chen Te era uma mulher adorável e generosa que ao perceber a oportunidade de passar os outros para trás não hesita em mentir e em tentar arrancar deles o pouco que possuíam. Nascido na Alemanha, Brecht transformou-se numa das personalidades teatrais mais influentes do mundo ocidental. Sua técnica visa a estimular a reflexão, proporcionar diversão e apelar ao bom senso; propõe-se a desnudar o comportamento hipócrita, que fundamenta a nossa ordem social, e mostrar ao espectador, mediante uma encenação lúdica e lógica, as contradições inerentes ao sistema socioeconômico do qual fazemos parte. Somos levados assim a compreender que a história é feita pelas atitudes e decisões de cada indivíduo. Ao final, muitos espectadores deixam o teatro um pouco incomodados, pois o texto não propõe nenhuma solução para o impasse apresentado. Depois do riso é quase impossível não exercitar o pensamento crítico. Afinal, o que é ser mau caráter? Algo natural e normal no contexto das condutas capitalistas? Ou algo reprovável que deve ser combatido em prol de uma sociedade mais justa e pacífica? Não é tarefa do teatro responder a tais questões. Essa tarefa brechtianamente é do espectador.
Erlon José Paschoal
Escrito por Erlon José Paschoal às 15h45
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OS GÊMEOS Há pouco vieram ao mundo os gêmeos dotados, sem dúvida, de uma força adicional para enfrentar situações adversas. São seres especiais, iluminados por Deus e bonitos por natureza, com uma sensibilidade incomum para descobrir caminhos e formas de superar as mazelas do mundo. Dentre outras, a vileza, a ganância, a mesquinhez, a mentira e o ódio destrutivo. Observa-se neles um bom caráter indestrutível apto a crescer e a frutificar. Ela é ágil, audaciosa, alegre, disposta a enfrentar quaisquer perigos ou obstáculos, e se delicia com o mundo. Ele é reflexivo, cauteloso, sorriso maroto e aguarda as melhores oportunidades. A realidade circundante com suas inúmeras ameaças pode comprometer o futuro deles. Mas percebe-se em ambos a curiosidade e a determinação de desfrutarem a vida e serem felizes. Com os adultos também não é muito diferente. Cada um a seu modo, todos têm um destino a cumprir. E muitas pessoas que conhecemos ao longo da vida se tornam instrumentos importantes para forjar o nosso próprio aperfeiçoamento. Isso é o que dá sentido a iniqüidades que por vezes nos assolam e aparentemente obstruem o nosso caminho. Certas situações testam o nosso núcleo humano e a consciência da missão que temos a cumprir. Ver crianças brincando envolvidas com as pequenas coisas é sempre uma experiência fascinante. Dois seres tão indefesos testando-se, descobrindo a vida através de vários objetos curiosos; alguns estimulam mais a imaginação, outros menos. Na visão dos adultos são muitas vezes coisas inúteis, brinquedos enfim, mas que para a sensibilidade de quem não entende ainda as contradições do mundo adulto e suas inumeráveis obsessões, acabam se tornando um instrumento de autoconhecimento e de abordagem do mundo. Manuseiam os objetos como um exercício lúdico, uma prática que se repete sempre orientada pelo prazer e pela curiosidade de tocar, cheirar e sentir. Os dois chegaram juntos para essa existência, conheceram juntos os primeiros sinais das belezas e das contradições desse nosso mundo. Isso faz deles companheiros de viagem com afinidades que vão para além da convivência uterina. O pulsar intermitente da energia que os move para todas as direções surpreende e encanta os adultos já adestrados no domínio de seu ritmo interior e de seus impulsos. Os desejos se sucedem numa sequência nem sempre coerente e buscam a sua satisfação imediata, nem sempre possível. Apesar dos “nãos” e dos limites inevitáveis da agressividade latente, de quem ainda não assimilou os valores do conviver civilizado, esses seres despertam sempre nos adultos sentimentos positivos e gregários, como o amor, o zelo, a generosidade e o carinho desinteressado. Cada momento histórico impõe desafios a quem deles participa. Ambos enfrentarão a super-população, a escassez de alimentos e de água, o aquecimento global e as inúmeras convulsões sociais, mas vivenciarão também uma série de mudanças de paradigmas da consciência humana e novas formas de convivência social ainda desconhecidas. O futuro é deles. Erlon José Paschoal
Escrito por Erlon José Paschoal às 10h38
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