Erlon José Paschoal
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                        Amizade sincera

 

Numa época em que convivemos diariamente, através das redes sociais virtuais, com conceitos como amigo e comunidade, creio que seria muito pertinente uma reflexão sobre a amizade e os sentimentos e valores que agrupam as pessoas.

Na internet podemos formar incontáveis redes de amigos trocando as informações mais diversas, compartilhando aspectos da vida íntima e socializando idéias. É uma ferramenta eficiente e até há pouco inimaginável na vida social,  que possibilita a aproximação  constante  com amigos distantes e o contato com novas pessoas, cujos interesses comuns podem favorecer boas “conversas” por meio de textos sempre circunscritos a um pequeno número de caracteres. Seria talvez a amizade virtual uma forma de comunicação com um forte potencial de solidariedade, uma vez que torna quase familiares pessoas de círculos e mundos diferentes?

A amizade é uma mescla de familiaridade, afeição e compromisso ético. Por isso os amigos são tão importantes, afinal representam as nossas escolhas, as nossas afinidades eletivas elaboradas ao longo da vida. Nesse sentido, a amizade virtual pode ser sincera e intensa, do mesmo modo que a amizade na vida real pode se tornar com o tempo algo superficial. Tudo depende de como utilizamos as novas tecnologias: se a serviço do aprofundamento das relações humanas ou como uma forma vazia de ocupar o tempo e construir falsas ilusões. De qualquer modo é fundamental a presença do gesto e do olhar, do corpo e de suas emoções. Algo que será sempre imprescindível. Guy Debord, em “A Sociedade do Espetáculo”, já nos alertou a respeito enfatizando que “a vida nas sociedades, nas quais reinam as modernas condições de produção, apresenta-se como um imenso conjunto de espetáculos".

Para muitos pensadores o principal ingrediente da amizade é a conversação. A personagem do conto “Uma Amizade Sincera” de Clarice Lispector confessa que “depois da conversa, sentíamo-nos tão contentes como se nos tivéssemos presenteado a nós mesmos.” Na conversação entre amigos cabem as brincadeiras, os assuntos pueris e os mais íntimos e sérios. Em sua obra “Sobre a Amizade” o filósofo latino Cícero pergunta: “Há coisa mais doce do que poder falar com alguém como falamos a nós mesmos? De que valeria toda a felicidade do mundo se não tivéssemos quem com ela se alegrasse tanto quanto nós?”

Em uma conhecida fábula indiana, Budha responde a um discípulo que a amizade nada mais é que uma bengala forte e segura, um apoio e um auxílio para se atravessar o Rio da Vida sem receio de escorregar. E termina esclarecendo que a amizade, como a bengala, deverá ser bem cuidada, para que nunca se deteriore e não apodreça, pois uma amizade é algo vivo, que necessita de cuidados para não morrer.

As novas tecnologias abrem novos caminhos e novas possibilidades de comunicação e nos confrontam, ao mesmo tempo, com o imenso desafio de nos tornarmos mais humanos. Quem sabe, fortalecendo ainda mais os laços afetivos que nos unem a outros seres humanos.

 

Erlon José Paschoal



Escrito por Erlon José Paschoal às 10h37
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                                              A função social do teatro

            No último dia 18 fui convidado para dar uma palestra na UFES, no auditório do IC-4, com o tema “Tragédia e Comédia e o Teatro Contemporâneo”. Foi um debate saudável e repleto de reflexões atuais e pertinentes.

Parti do princípio de que tragédia e comédia em sua origem são duas perspectivas estéticas de se confrontar com a vida em seu sentido ético, político, social e individual. Naturalmente em mais de dois milênios de existência, esses dois conceitos passaram por inúmeras transformações e adequações sempre relacionados com cada período histórico e com suas respectivas contradições. Abordei-os a partir da função social que desempenharam ao longo da história, uma vez que o teatro é eminentemente um evento artístico social. Nesse aspecto poderíamos afirmar que, ao contrário das outras artes, pelo menos até o advento dos museus, o teatro foi a única atividade artística com um espaço arquitetônico próprio, construído com o objetivo de receber um grande número de pessoas para uma celebração conjunta.

A tragédia surge, juntamente com a comédia, nas festas dionisíacas, sendo que a primeira pretendia expor a essência humana e a sua relação com os sentimentos profundos de amor, ódio, medo, traição, etc., enquanto a comédia tratava do comportamento cotidiano dos homens.

O filósofo Aristóteles, em sua Poética, esclarece que a tragédia tem como finalidade a purgação de emoções como a compaixão e o terror. Resumindo poderíamos afirmar que a tragédia é a expressão desesperada do homem orgulhoso, que luta contra todas as adversidades e contra os deuses, mas não consegue evitar o infortúnio.

É preciso destacar que na Grécia antiga o teatro possuía uma função social de proporções só equivalente à arte de massa nos dias de hoje.

Na segunda metade do séc. XIX  surge o conceito de “crítica social” no contexto das teorias socialistas. O teatro passa a ser considerado sob novas perspectivas, dando relevo à crítica das realidades econômica, política e social. 

            Um efeito procurado hoje pelas produções teatrais é causar um certo desconforto no público, um distanciamento crítico das referências à realidade presentes na representação. Há ainda uma outra via através da qual este mesmo efeito é alcançado: espetáculos que se utilizam da intersecção de diversas formas de expressão artística propondo um diálogo entre formas de expressão diversas.

Isso vale também para a mescla de gêneros no teatro moderno, no qual o trágico se mistura com o cômico e com o grotesco, o cômico com o dramático, o dramático com o farsesco e assim por diante, sem fronteiras definidas.

E hoje, em nosso mundo globalizado e interconectado, repleto de barbáries e genocídios, onde o trágico é sempre contaminado pelo grotesco e o cômico pelo riso fácil, como são percebidas essas duas perspectivas de se confrontar com a vida? Ou, em outras palavras, com as novas mídias e as convergências virtuais, que função o teatro ocupa na sociedade atual?

Erlon José Paschoal



Escrito por Erlon José Paschoal às 10h36
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                                                Um salto gigantesco

            No último dia 20 de julho  comemoraram-se os quarenta anos da chegada do homem à Lua. Afora os inúmeros avanços tecnológicos oriundos dessa aventura impulsionada pela disputa acirrada entre as duas superpotências da época, que influenciaram o cotidiano das sociedades mais desenvolvidas, houve uma mudança crucial na percepção humana em relação à vida e ao universo.

            A partir de então passamos a olhar a Terra à distância e pudemos contemplar a imensidão do Cosmos e constatar a nossa insignificância em meio a esse conjunto inacessível e infinito. A Terra começou a ser vista quase como uma nave espacial, ou como cantou Caetano Veloso: “Que a força mãe dê coragem/ Pra gente te dar carinho/ Durante toda a viagem/ Que realizas no Nada/ Através do qual carregas/ O nome da tua carne”. Somos a partir daí a única espécie desse planeta que “vê” a Terra de fora.

Um teórico americano, Frank White, cunhou a consequência desse salto gigantesco para a humanidade de “efeito panorâmico” (overwiew effect). Não se trata somente de uma mudança ocasionada por imagens que nos apropriamos e introjetamos, mas de uma transformação profunda na consciência humana em relação a si mesma, ao sentido da vida e aos mistérios da existência. O autor se utiliza de uma metáfora curiosa apoiando-se na evolução da humanidade aceita pelos cientistas: um peixe consegue sair do mar e vê-lo à distância. Ele é capaz de vislumbrar o oceano e imagina-lo parte de algo infinitamente maior. Todos os referenciais válidos até então se transformam, desaparecendo os limites e as fronteiras. Novamente Caetano: Quando eu me encontrava preso/ Na cela de uma cadeia/ Foi que vi pela primeira vez/ As tais fotografias/ Em que apareces inteira”. A consciência vai assimilando gradualmente novas concepções de espaço e tempo que apontam para a reestruturação da vida na Terra.

Bertrand Russel afirmou no início do século XX que o universo todo é simplesmente o resultado de agrupamentos acidentais de átomos. A existência ficaria desse modo desprovida de qualquer significado real. Seria um encontro com o Nada, que pode gerar sensações e posturas antagônicas: o desespero,  a perplexidade e a alienação ou a condução sábia da vida e a paciência, a reverência à totalidade e a consciência ética. Muitos filósofos e pensadores já haviam expressado idéias semelhantes antes das constatações científicas e das divulgação das imagens da Terra e do Cosmos com as quais convivemos hoje, como algo que compõe o nosso horizonte de experiências possíveis.

Podemos deduzir daí que vivemos um período de transição, sendo confrontados a todo momento com perspectivas excludentes: a extinção de todas as espécies ou a vida harmoniosa em um planeta equilibrado, a barbárie extrema ou o mais alto grau de civilização, a tolerância e o respeito à diversidade ou o extermínio e o ódio destrutivo.

Para muitos vivemos hoje uma época similar à Idade Média. Nesse caso muito provavelmente vivenciaremos um renascimento ou assistiremos ao caos e à destruição. A escolha é de cada um.

 

Erlon José Paschoal



Escrito por Erlon José Paschoal às 10h34
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